A lavagem de dinheiro, isto é, o processo mediante o qual o
dinheiro obtido por meios ilegais passa à condição de legítimo ou tem suas
origens ilegais mascaradas, constitui um problema em si mesmo. Recobre não só
os lucros obtidos com o comércio ilícito de drogas mas também a evasão de
capitais, a sonegação fiscal, a corrupção, o contrabando e todas aquelas
atividades que buscam escapar do controle e da regulamentação governamental
dos estados nacionais.
No processo de lavagem de dinheiro, a economia
ilegal atinge seu ‘ponto de bifurcação’, deixando para trás sua condição
ilegal para passar a integrar a economia lícita. Essa quebra de simetria entre
o ‘antes’ e o ‘depois’ só é possível graças à alquimia realizada pelo sistema
bancário e financeiro, que transforma o dinheiro sujo em dinheiro
limpo através de operações numéricas e certos jogos de deslocamento
geográfico.
A simbiose que assistimos hoje entre as
organizações que exploram o comércio de drogas ilícitas e o sistema bancário e
financeiro internacional pode ser considerada não só como a questão mais
importante entre todas as que caracterizam a economia da droga mas também como
a dimensão sombria da própria evolução do mercado internacional de dinheiro e
de divisas, hoje administrado por um sistema bancário e financeiro
globalizado.
Quatro aspectos desse processo de globalização
bancária e financeira merecem ser destacados por incidirem diretamente na
ampliação da escala e na proliferação dos mecanismos de lavagem de dinheiro:
a) a des-regulamentação do sistema de compra e venda de dinheiro,
crédito ou papéis financeiros, que lhe confere seu caráter de globalidade, na
medida que permite que ele se desenvolva de forma mais ou menos independente
dos governos nacionais (Strange,1994); b) os desdobramentos, aparentemente
contraditórios, desta des-regulamentação que, de um lado, tem levado alguns
governos nacionais a manipularem os limites territoriais sob sua jurisdição de
modo a criar territorialidades específicas e funcionais à essa
situação, o exemplo mais visível sendo o dos ‘paraísos fiscais’ ou offshore
havens e, de outro, a acolherem/apoiarem os bancos, bolsas e agencias
atuantes (ou que possam atuar) na área de investimentos internacionais e no
mercado internacional de dinheiro, com o intuito, entre outros, de assegurar o
acesso ao crédito; c) o crescimento extraordinário do volume, dos fluxos e das
‘espécies’ de capital de curto-prazo que circulam nos mercados financeiros
internacionais, desde o capital especulativo (“hot money”) até
instrumentos de crédito comercial, letras do Tesouro, depósitos bancários,
depósitos de curto prazo, etc. Apesar do grande potencial ‘desestabilizador’
dos capitais de curto prazo para a economia interna dos países, principalmente
daqueles mais dependentes de crédito internacional, a maioria deles não os
rejeita pois, por mecanismos ainda pouco estudados, o afluxo desses capitais
passa a funcionar como um indicador positivo para o rating do país no
mercado internacional e como uma espécie de coringa nos jogos políticos
internos (Kim,1993); d) a operação em rede do sistema bancário e
financeiro, possibilitada pelas inovações tecnológicas na área da informática
e das telecomunicações, o que permite a transmissão de dinheiro-bit de
informação de maneira cada vez mais rápida e mais barata e uma facilidade
maior no acesso à mercados geograficamente dispersos (Thrift & Leyshon,1994).
Em conjunto, esses aspectos permitem a ampliação do
campo de manobra para a lavagem de dinheiro por organizações que exploram o
comércio de droga ilícitas (ou qualquer outra atividade ilegal), com a
multiplicação de nichos a serem aproveitados por operações de lavagem
(Machado,1996).
Apesar da importância e do interesse que desperta
o caráter de globalidade dos sistemas bancário e financeiro, esse mesmo
caráter pode ser identificado nos processos de lavagem de dinheiro, e mesmo
nos circuitos comerciais da droga. Implicando na liberação de enquadramentos
regulatórios de base territorial como aqueles do estado-nação, o termo
global designa algo abstrato, cuja ‘espessura geográfica’ (materialidade)
e complexidade só pode ser apreendida no lugar (Santos,1996;Law,1994).
1.
O Brasil: a desordem das normas vs. a ordem do espaço
A inserção do Brasil nos esquemas internacionais de
lavagem de dinheiro não é recente nem pode ser atribuída à expansão do
trânsito de drogas ilícitas em seu território. Entre as condições favoráveis à
essa inserção é possível mencionar: o processo inflacionário da década de 80,
que se estende até 1994; a crise fiscal e institucional do Estado, que
acentuou a instabilidade do sistema de crédito e, de modo geral, das regras de
condução da economia; o crescimento do mercado informal de trabalho e de
pequenas empresas que ainda subsistem a base do contrabando e da sonegação
fiscal.
A inflação permitiu o desenvolvimento de um sistema
bancário doméstico, moderno e bem articulado, com a proliferação de agencias
no território nacional, interligadas por uma infra-estrutura de
telecomunicações, cujos principais clientes, por certo, são os bancos
(Dias,1995). Em termo das redes globais de telecomunicação de aluguel, no
final da década de 1980, as empresas e, principalmente, os bancos, já se
interligavam ao sistema global de telecomunicações empresariais, como mostra a
Figura 1. A rede global e a rede de
nódulos e vetores regionais fornecem um nível mais alto de conectividade e são
menos vulneráveis às perturbações na comunicação, muito comuns em países como
o Brasil, por possibilitarem mais de uma rota alternativa (Langdale,1989).
A expansão do mercado negro de dólares, o
desenvolvimento de esquemas para a remessa ilegal de divisas para o exterior,
parte delas proveniente da “caixa 2” das empresas, que engrossou um movimento
de evasão de capitais para fugir tanto da instabilidade como da desvalorização
da moeda
[2] , a familiaridade forçada de uma parte considerável da
população assalariada com esquemas financeiros para evitar a desvalorização
dos salários e pecúlios, o sigilo bancário, são outros fatores que embora
possam ser relacionados ao processo inflacionário o ultrapassam, na medida que
estabeleceram um ‘ambiente’, uma cultura, favorável ao desenvolvimento
dos mecanismos de lavagem.
Tais mecanismos são, portanto, preexistentes à
reforma instituída com a introdução de nova moeda, o real, em meados de
1994. Incluem desde operações por casas de cambio e doleiros,
subfaturamento das importações e superfaturamento das exportações, desvio de
créditos subsidiados para o mercado financeiro, até contas bancárias
fantasmas ligadas à esquemas de corrupção, e operações ligadas à ‘caixa
2’, como o uso das contas bancárias CC-5 (Carta Circular n.5 do Banco Central
de 1969), destinadas às pessoas físicas e jurídicas residentes, domiciliadas
ou com sede no exterior para movimentação de divisas no país, que passaram a
servir não só aos bancos e empresas como às organizações ligadas ao
contrabando e ao tráfico de drogas para a remessa ilegal de divisas ao
exterior (O Globo,1995).
O controle do processo inflacionário e a
valorização da moeda nacional teve o apoio de grande parte da população, como
se tornou claro na época das eleições presidenciais, assim como das agencias
financeiras e bancos credores internacionais com os quais o Brasil mantém uma
dívida da ordem de $120 bilhões. Se a reversão do processo inflacionário e a
estabilidade cambial se situam na contracorrente da cultura da inflação, a
política econômica que lhe dá substrato está voltada para a ampliação de uma cultura de mercado, incentivando medidas destinadas à alteração das
normas vigentes, tanto econômicas como culturais
[3] . Medidas que desembocam no aumento da porosidade do território
nacional ao mercado internacional, na reconversão do parque industrial, na
redução das despesas governamentais e na elaboração de novas normas para a
regulamentação e des-regulamentação das instituições sócio-econômicas são
considerados como elementos de uma política necessária, destinada a melhorar
as condições competitivas do país tanto no mercado internacional de
mercadorias como no mercado de dinheiro, este último já pressionado por uma
crescente demanda global por créditos (Business Week, 1994).
Duas metas são assim interligadas, ambas
relacionadas ao crédito - de dinheiro e de confiança: tanto a
reestruturação econômica exige a disponibilidade de crédito, como a
possibilidade de competir e obter recursos no mercado internacional está
atrelada à mudanças das normas, de modo a ganhar a confiança dos investidores
potenciais.
Nesse novo ‘ambiente’ que se quer instaurar, novas
tensões aparecem, como visível no verdadeiro jogo, do gênero “fio da navalha”,
de ajustar, passo a passo, as políticas de investimento (crédito) à política
de juros altos, esta destinada a atrair, no mercado internacional, capitais de
curto prazo para incrementar as reservas em moeda estrangeira do país. As
reservas cambiais tem atuado como variável econômica mas também como variável
política, na medida que passaram a simbolizar, para o mercado e para a
população, uma espécie de garantia da estabilidade cambial e, ipso
facto, da estabilidade do governo: as reservas cresceram de $32,2 bilhões
em dezembro de 1993 para $55,7 bilhões, até março de 1996 (Banco
Central,1996).
O êxito dessa política, com o crescimento dos
chamados investimentos externos em moeda, cria outras tensões: a volatilidade
e o controle reduzido sobre esses fluxos, cujo comportamento é determinado
pela variação da taxa de juros e de outros indicadores no mercado
internacional, fragiliza a própria política encarregada de os estimular. Dos
investimentos externos em moeda estrangeira em 1995, que incluem os
investimentos em portfolio, investimentos diretos, e em fundos
de renda fixa e de privatização, cerca de 70% pertencem à
primeira modalidade, tendo aumentado de $3,8 bilhões em 1992 para $22,5
bilhões em 1995. Por outro lado, a proporção do retorno para o exterior dos
investimentos em portfolio, cresceu de 44% em 1992, para cerca de 80%
em 1995 (Banco Central do,1996).
[4]
Por sua vez, a maior entrada de capital de curto
prazo, que pode aumentar as reservas cambiais ou fornecer crédito às empresas
para financiar o consumo, ao obrigar a compra de dólares pelo governo tende a
aumentar o estoque da dívida interna. Os mecanismos legais de incentivo ao
mercado financeiro e de crédito, tanto no plano doméstico quanto
internacional, podem e são utilizados para a lavagem de dinheiro e sua
posterior inserção na economia legal. Assim, investidores e empresas nacionais
podem fazer uso desses mecanismos para forjar a remessa de capitais para fora
e fazê-los “retornar”, ou seja, lavar os dólares, como investimento em fundo
estrangeiro para aplicação em bolsa de valores ou renda fixa no país. Também
investidores e empresas estrangeiros, ligados, eventual ou permanentemente, à
esquemas de lavagem, podem comprar títulos emitidos por empresas brasileiras
no exterior ou letras do Tesouro nacional.
A natureza sistêmica dessas interações, a
sensibilidade desse sistema ao ‘ambiente’, e sua conseqüente instabilidade
dinâmica são alguns dos traços que permitem descrever o sistema bancário e
financeiro nacional e internacional como sistemas abertos, perpassados
por fluxos internacionais de dinheiro e papéis. É a conexão entre esses
fluxos, que atuam, simultaneamente, como evento e limite, e as variáveis e
eventos localizados no interior de cada estado que determinará a estabilidade
ou instabilidade do regime de funcionamento do sistema como um todo. A
lavagem de dinheiro, considerado por muitos governos como uma “desordem”
no comportamento do sistema bancário e financeiro é parte integrante desses
fluxos macroscópicos, e só se materializa como problema quando interfere na
evolução de certas “regiões” no espaço geográfico mundial.
2. Proposta
de Metodologia
Nas seções
seguintes pretende-se mostrar como o ‘sistema’ esboçado acima pode estar
interagindo com o tráfico de drogas na América do Sul e, em especial, na
região Amazônica brasileira. A pretensão aqui é mais teórico-metodológica do
que factual. Em primeiro lugar, porque se quer introduzir uma perspectiva
geográfica no estudo desses temas. Entendemos como tal, a espacialização
de dados oficiais ou empíricos sobre tráfico de drogas e movimento financeiro.
Essa espacialização compreende não só a visualização da disposição geográfica
específica que assumem no lugar como, em si mesmo, o ato de
espacializar permite a descoberta de relações que as estatísticas e outros
tipos de informação deixam na sombra. É nesse sentido que pensamos apresentar
aqui uma metodologia inovadora que, esperamos, em parte compense a falta de
precisão de algumas afirmações. A dificuldade na obtenção de dados e o baixo
grau de ‘confiabilidade’ de algumas informações situam o trabalho no campo da
probabilidade e não da certeza.
A metodologia proposta está fundamentada no papel
que as redes (no sentido anglo-saxão de network) assumem no mundo
contemporâneo. Como forma de organização técnica (infra-estrutura de suporte
ou logística), transacional (econômico-política), informacional
(cognitiva)
[5] , a estrutura de conexões por rede tem um significado hoje bem
mais complexo do que o do simples desenho de nódulos conectados por linhas,
utilizados por engenheiros eletricistas, de transporte ou de comunicação para
a descrição gráfica dos respectivos sistemas. Também no estudo das
organizações espaciais é preciso hoje uma noção mais complexa de rede do que
aquela tornada senso comum na geografia como a de rede urbana, de transporte
ou fluvial, o que não significa, é claro, que todas as outras formas de
territorialidade desapareceram.
Para o desenvolvimento da metodologia, três noções
centrais à complexidade das redes foram incorporadas. Em primeiro lugar, a
transposição da noção de posição de um objeto e.g. uma cidade no espaço
geográfico, cujo referencial é a malha de coordenadas geodésicas, para a noção
de posição com referência à malha de redes à qual cada objeto no espaço pode
ter acesso efetivo ou virtual (Raffestin,1985;Pumain,1989). A importância de
um lugar que é, em geral, determinada por sua posição em relação à todos os
outros lugares, segundo diversos registros - econômico, político, cultural,
passa a ser também definida pelos objetivos que movem as estruturas em rede,
ou seja, os objetivos das organizações responsáveis por seu desenho. Significa
que a estrutura conectiva das redes obedece, em princípio, à uma concepção
teleológica: seleciona lugares segundo os objetivos para os quais a rede está
dirigida e não, necessariamente, pelo conjunto de variáveis endógenas que
conformam o lugar; esse processo pode ser seletivo tanto em termos dos lugares
escolhidos como dos indivíduos e grupos participantes. Em segundo lugar, a
constituição de redes questiona a tendência à centralidade nos processos
espaciais. Isso porque há uma tendência das redes a operarem como ‘sistemas
autoregulados’, ou seja, sistemas que mantém sua própria estrutura de ordem e
regulações: não é um fator determinante que o desenho de uma rede obedeça, por
exemplo, a hierarquia urbana, baseada na distribuição de população e serviços.
Isso é tanto mais verdade para redes informacionais, às quais, hoje, englobam,
por exemplo, a esfera de circulação de dinheiro
[6] . Tanto as redes formais como as informais articulam um número
variável de atores (sociais, políticos, frações ou diferentes instâncias dos
aparatos organizacionais) que, na medida que operem segundo um princípio de
auto-interesse, tendem a criar uma estrutura heterárquica, distinta das
estruturas hierárquicas “cuja principal razão de ser repousa sobre a eficácia
com a qual exercem um autoritário sobre os processos de tomada de decisão no
sistema”; em sociedades complexas, no entanto, é mais provável a formação de
uma estrutura “híbrida”, ou seja, de uma combinação de estruturas hierárquicas
e heterárquicas (Leeuw & McGlade:218).
Finalmente, a noção de que as redes técnicas,
transacionais e informacionais são interescalares, isto é, articulam nódulos
pertencentes a diferentes níveis de organização espacial - local, regional,
nacional, internacional. Significa que podem transpassar fronteiras nacionais
e internacionais sem obedecer ao princípio de contiguidade espacial que
define, em geral, o território-base da soberania de um estado nacional. Não só
permitem a representação cartográfica das conexões entre microespaços e outros
níveis de organização escalar como constituem, em si mesmas, a forma
preferencial de organização das operações de tráfico de drogas e de lavagem de
dinheiro.
3. A
rede de tráfico de drogas e a bacia de drenagem do rio Amazonas
A inserção do Brasil
e de sua porção amazônica no negócio internacional das drogas se faz por
intermédio do complexo coca-cocaína. As principais áreas produtoras de coca
estão localizadas na borda ocidental da grande bacia de drenagem do rio
Amazonas, nos altos e médios vales de seus formadores e afluentes (Huallaga,
Ucayali, Apurimac no Peru; Beni, S.Miguel na Bolivia; Putamayo, Caquetá,
Uaupés na Colombia). Portanto, para o mapeamento do complexo coca-cocaína e de
suas interligações com o Brasil, foi tomada como unidade espacial de
referência a bacia de drenagem do rio Amazonas, uma área maior do que a
Amazônia Sul-americana, em geral delimitada a partir de critérios
fitogeográficos (área recoberta por florestas úmidas) ou
topográficos-climatológicos (áreas quentes, de baixa altitude). Do ponto de
vista da logística do tráfico de drogas, as grandes bacias hidrográficas
sul-americanas, tanto a Amazônica como a do Paraguai-Paraná, tem se
constituído numa importante alternativa para a criação de um sistema de
transporte intermodal para o trânsito de droga. É interessante relembrar que,
apesar das dificuldades para a navegação fluvial, durante séculos essas bacias
constituíam a principal via de comunicação no interior do continente
sul-americano.
À rede fluvial se superpõe uma rede de
transporte rodoviário e aéreo que permite uma razoável interligação entre a
costa do Pacífico e a costa atlântica. Não obstante as inúmeras discussões,
tanto dos governos nacionais como do Banco Mundial, sobre a conveniência de
construir ou não uma conexão rodoviária transcontinental, esta conexão, mesmo
que precária, é um fato consumado, sem que saibamos até que ponto a economia
da droga subsidiou, direta ou indiretamente, sua construção gradual
[7] . Outro aspecto a mencionar é que tanto a rede de transporte
aéreo como rodoviário na América do Sul não está restrita às rotas
intercontinentais e aos aeroportos oficiais. Uma malha precária de caminhos e
estradas secundárias, além de pistas de aterrissagem em fazendas e povoados,
disseminados pelo interior do continente, demonstram que, ao lado de uma
estrutura de rede formal, existe uma outra, que poderíamos denominar de
“informal”. Se é sabido que o tráfico de drogas aproveita-se de ambas,
desconhece-se até que ponto as organizações ligadas ao tráfico são
responsáveis pela manutenção e ampliação dessa malha secundária.
Os principais corredores e rotas do tráfico entre
os países andinos e o Brasil, e a rede virtual de pontos de trânsito e áreas
de processamento foram plotados de modo a produzir um mapa que permitisse
visualizar a dimensão ‘atlântica” da rede logística do comércio da droga (Mapa 1). Destaca-se que a associação entre tráfico de drogas e contrabando
é também válida para o Brasil. Rotas e corredores utilizadas pelo tráfico tem
mão dupla, servindo para o contrabando de ouro, produtos eletrônicos,
mercadorias (café, soja), carros roubados, trocados por coca, cocaína, armas
ou produtos industriais.
As fontes utilizadas foram diversas: informação
obtida em trabalho de campo em várias áreas da Amazônia brasileira; relatórios
da Polícia Federal e do Drug Enforcement Administration (DEA); boletins da
Organisation Geopolitique des Drogues (OGD); artigos, livros, revistas e
jornais diversos, tanto nacionais como estrangeiros. Um levantamento das
apreensões de droga
[8] e ‘estouro’ de laboratórios realizados nos últimos seis anos
foi essencial não só para o mapeamento das rotas e localização provável de
laboratórios como para estabelecer quais as condições geográficas mais
favoráveis para que uma cidade se torne centro de compra e venda por atacado
de droga e/ou ponto de trânsito (Machado,1996).
A inserção do Brasil na economia da droga também se
faz através da venda de produtos químicos utilizados no processo de
transformação da folha de coca em cocaína (Figura 2). Apesar desse mercado ser mais atendido pelas industrias dos países
centrais e.g. Estados Unidos, Alemanha, para a indústria de produtos químicos
e de combustíveis brasileira, a instabilidade do mercado de consumo doméstico
é um incentivo para vendas eventuais aos países andinos, onde a maior parte da
folha de coca é processada.
Para concluir esta seção, pode-se argumentar que o
uso ‘desordenado’ das redes de circulação pelo tráfico - no sentido de uso
alternativo de rotas e de um sistema de transporte intermodal (aéreo,
rodoviário, fluvial, ferroviário) - busca uma “desordenação ótima”, pedindo
emprestado um conceito desenvolvido por Albert Hirschman, para descrever
situações onde o controle organizacional opera a nível mínimo e as interações
com o ambiente são instáveis. Parece ser esse o caso da rede de tráfico de
droga: exigências organizacionais e razões de segurança ditam a escolha dos
atores, mas o comportamento adotado no deslocamento da mercadoria depende de
sua sensibilidade e nível de informação, que podem ser considerados, nesse
caso, como variáveis aleatórias. Se, de um lado, a relativa ‘desordem’ na
escolha das rotas e meios de transporte é parcialmente superada pela adoção
consentida de um rígido e violento código de conduta por parte dos atores, o
mesmo não se aplica à dimensão espacial da cadeia produtor-ao-consumidor do
tráfico. Nesse caso, talvez, a única maneira de superar a oscilação inerente
ao uso das redes seja intensificar a interação com o ambiente, isto é, com
instituições legítimas e comunidades locais. Quando esse tipo de comunicação é
estabelecida, mesmo que essa interação esteja baseada na corrupção, a rede, em
princípio instável, pode ser mantida em ‘estado estável’, indicando que, ao
contrário do senso comum, a natureza dos subsistemas que compõem o negócio da
droga é análoga a dos ‘sistemas abertos’.
4. A
espacialização do movimento de dinheiro na Amazônia brasileira
No contexto do processo inflacionário e da política
governamental de ocupação da região amazônica (incentivos fiscais, apoio ao
crescimento e criação de cidades e projetos de colonização) não é
surpreendente que esta região, apesar da baixa densidade de povoamento, tenha
sido integrada ao sistema bancário doméstico. A conexão entre as agencias
bancárias locais e as sedes dos bancos, localizados no Centro-sul do país, foi
garantida por um considerável investimento governamental em serviços de
telecomunicação, uma das condições mais importantes para a política de
integração nacional (PIN), implantada durante a década de 1970. O êxito
relativo dessa política pode ser medido pelo redirecionamento dos fluxos
imigratórios internos, o crescimento da massa populacional, a expansão da rede
urbana e de transporte e a exploração, em moldes capitalistas, dos recursos
naturais da região. A forma territorial esgarçada, que caracteriza a
disposição geográfica do povoamento, não impede o reconhecimento de uma
estruturação espacial incipiente, constituída em torno dos eixos de circulação
fluvial e rodoviária, dos projetos de colonização, e das cidades e vilas.
A partir da década de 1980, a retração do apoio
governamental às políticas de assentamento e implantação de infra-estrutura só
veio a acentuar os problemas sociais e econômicos que surgiram desde a
implantação dos primeiros planos de colonização regional (Becker,1990; Becker et alli, 1990). Entre esses problemas sobressaem: o processo de
apropriação de terras, que reproduziu, na região, o padrão de concentração
fundiária que caracteriza o sistema agrário do país; a disponibilidade
restrita de crédito a juros baixos; a baixa capacidade de endividamento dos
pequenos produtores rurais nas antigas áreas de assentamento.
Por outro lado, as
atividades que estão vinculadas ao mercado internacional apresentam maior grau
de capitalização. Entre elas destacam-se: a agroindustria da soja, que se
desenvolve nas áreas de savana (cerrado) de Mato Grosso, os projetos de
mineração (Carajás, Oriximiná), a montagem de produtos eletro-eletrônicos
(Zona Franca de Manaus) e a exploração da madeira. A disseminação da
exploração do ouro em vários subespaços amazônicos e o próprio processo de
urbanização também podem estar relacionados à um processo incipiente de
formação de capital.
A questão que se coloca, e que não é respondida com
precisão neste trabalho, é se o comércio da droga e a lavagem de dinheiro tem
tido um papel na evolução econômica da região, ou seja, no financiamento de
atividades produtivas absolutamente legais. Se isso ocorre na região, e
onde ocorre, são questões que permanecem, por ora, em aberto. O que se
pode afirmar a partir dos dados disponíveis, é que o movimento de dinheiro
através do sistema bancário é, em muitos casos, incompatível não só com a
maior parte das economias urbanas como das economias sub-regionais.
Uma observação
preliminar: a escolha da região amazônica brasileira como unidade de
referencia espacial para a análise da movimentação de dinheiro não foi
motivada pela idéia de que esta região é a mais importante para os esquemas de
lavagem de dinheiro. Ao contrário, no quadro regional brasileiro,
provavelmente a Amazônia ocupa um lugar periférico em relação às principais
operações de lavagem. Como foi discutido na primeira seção deste artigo, os
mecanismos de lavagem estão virtualmente abertos para o conjunto nacional. Os
motivos da escolha foram de ordem prática: um conhecimento acumulado em 20
anos de trabalho na região e o fato de que, em oposição ao Centro-sul por
exemplo, o baixo grau de desenvolvimento das atividades produtivas e uma massa
populacional reduzida são fatores que facilitam o dimensionamento do movimento
de dinheiro como uma função da economia de cada lugar ou como um evento
singular que exige uma explicação.
O mapeamento do movimento de cheques compensados
durante todo o ano de 1995 se baseou em dados fornecidos pelo Banco Central do
Brasil (Mapa 2).
Para que fosse possível sua espacialização foi pedido que os dados, valor e
número de cheques compensados, fossem classificados por praça bancária, ou
seja, os lugares onde existem agencias de bancos privados e públicos. Esses
lugares são, na sua maioria, cidades, ou seja, sedes de município, uma vez
que, segundo a legislação brasileira, uma aglomeração só pode ser considerada
como cidade se for obedecida a condição de sede municipal. Existem exceções:
cidades-empresa como é o caso de vila Carajás, situada no interior da área sob
jurisdição da Companhia Vale do Rio Doce, uma empresa para-estatal,
encarregada da exploração das grandes reservas minerais da Serra dos Carajás
no Sudeste do Pará.
A condição de fronteira de povoamento e o grande
aumento de municípios criados, principalmente a partir da Constituição de
1988, que liberou para os estado da federação o direito de conceder autonomia
municipal, permite que diversas aglomerações sejam consideradas como cidades,
mesmo que os serviços urbanos e capacidade mínima de auto-sustentação estejam
ausentes. No entanto, Brasil pequenas aglomerações como Eirunepé, cuja vida
econômica está relacionada ao comércio fluvial no médio vale do Juruá
(sudoeste do estado do Amazonas), com população urbana de 13.451 pessoas e
população total de cerca de 20 000 pessoas (1991), apresenta cheques
compensados no valor de R$ 1.344.411,00, nas três agencias bancárias da
cidade. Como em 1995 o valor do real era ligeiramente maior do que o
dólar, significa um movimento de mais de um milhão de dólares (uma média
mensal de pouco mais de cem mil dólares). A arrecadação de impostos federais
no município (1995), incluindo imposto de renda de pessoa física e jurídica,
foi de 144.220,00 reais. Mesmo considerando a possibilidade de sonegação
fiscal e o fato de que muitas atividades econômicas na região amazônica (e no
país de modo geral) não pagam impostos porque pertencem ao “mercado informal”,
a discrepância é muito grande.
Existem casos que apontam numa outra direção, quer
dizer, de cidades que crescem e apresentam um desenvolvimento das atividades
econômicas, sem que esteja claro qual a origem do capital. Na cidade de Tefé,
no rio Solimões (oeste do estado do Amazonas), com população total de quase
60.000 habitantes (72,3% urbana), o movimento de cheques compensados nas três
agencias bancárias da cidade foi de R$ 4.877.002,00 e a arrecadação federal de
R$ 692.858,00, um valor similar à Claudia, no norte de Mato Grosso, em plena
zona de produção da soja (R$ 697.333,00). Tefé é um dos mais antigos (e
conhecidos) pontos de trânsito no comércio de cocaína no vale do Amazonas.
Apesar de existirem repetidos indícios de que seja ponto de trânsito para o
comércio da coca-cocaína através da rede de circulação aérea, Tefé também está
bem posicionada em relação à circulação fluvial, fato conhecido desde a época
pré-colombiana: a montante, no rio Solimões, encontra-se a foz do rio Japurá,
ou Caquetá para os colombianos, em cujo médio vale se localiza uma das
principais zonas de produção de coca e cocaína da Colombia. A jusante, também
no Solimões, encontra-se a foz do rio Juruá, que desce desde a zona cocalera
do Peru, passando por Cruzeiro do Sul, Eirunepé, Itamarati e Carauari (ver
Mapa 1). De certo modo, Tefé representa o grupo de cidades onde os lucros
indiretos com o tráfico talvez esteja incentivando o surgimento de atividades
econômicas absolutamente legais, com base urbana.
Cruzeiro do Sul, no extremo leste do Acre (alto
vale do rio Juruá), é uma antiga cidade da época da borracha, e que hoje ainda
depende do comércio. É difícil responder de qual tipo de comércio depende.
Transformada em zona de livre comércio, é uma espécie de cidade “boca
de sertão”, por ser ponto extremo da estrada de rodagem que corta o estado do
Acre, no sentido leste-oeste. Esse fato, e a proximidade relativa às zonas de
produção de coca do vale do Urubamba no Peru devem ter influenciado sua
incorporação à rede de tráfico de cocaína e, possivelmente, de pasta base de
coca. A logística nessa rota inclui o transporte por via aérea, fluvial e
rodoviária. A cidade, cuja população está na faixa dos 30.000 habitantes, tem
cinco agencias bancárias, que movimentaram cheques no valor de R$17.213.386,00,
correspondentes à 49.431 cheques compensados. Apesar de sua condição de zona
de livre comércio liberá-la de certos impostos, a arrecadação federal no
município foi de R$ 1.511.862,00, o que na região amazônica pode ser
considerado como um montante significativo.
Os valores mais altos
de cheques compensados na região correspondem às duas metrópoles regionais,
Manaus e Belém. É provável que o desenvolvimento da Zona Franca e, mais
recentemente, do turismo internacional, tenham contribuído para que a cidade
tenha se tornado um nó importante na rede de circulação aérea regional,
nacional e internacional. É também a porta natural de entrada do vale do rio
Negro e, portanto, de seus formadores, Içana e Uaupés, em cujo médio vale se
localiza a fronteira agrícola cocalera de Miraflores e S.Jose do Guaviare no
sul da Colômbia (Mapa 1). Mais recentemente, uma estrada de rodagem, em
processo de asfaltamento, conecta Manaus à Venezuela, à Colômbia e à Guiana
(antiga Guiana Inglesa), um dos portos alternativos de saída da cocaína para
os Estados Unidos e a Europa. A construção e asfaltamento dessa estrada não
pode ser atribuída somente aos interesses das organizações ligadas ao tráfico.
Constitui um dos principais eixos estratégicos, tanto do ponto de vista
econômico como geopolítico, de acesso ao Caribe. Manaus ultrapassa Belém em
valor total de cheques compensados, R$9.048.048.642,00, enquanto a última
registra R$8.058.771.075,00. Cuiabá, com pouco mais de ¼ da população das duas
metrópoles, tem o terceiro maior volume de dinheiro em cheques compensados,
R$6.535.768.964,00.
No caso desses três cidades, as mais importantes da
região amazônica, fica difícil distinguir a contribuição do tráfico
nacional/internacional de drogas para seu crescimento. Contudo, todas as três
ocupam posições estratégicas em relação aos principais corredores de
circulação regional/internacional.
O Banco do Brasil, encarregado da câmara de
compensação de cheques para todo o país, tem criado, em algumas praças
bancárias, centros (locais) de serviço de compensação (CESEC). A escolha para
a localização de um CESEC obedece à critérios geográficos de centralidade
subregional, mas, principalmente, bancário, ou seja, do volume de cheques
compensados.
O estado de Rondônia tem dois CESECs: Porto Velho
(capital do estado) e Cacoal no centro-sul do estado. Enquanto a população de
Porto Velho está na faixa de 250.000 pessoas, a população de Cacoal se situa
na faixa de 50.000 habitantes. O CESEC de Cacoal compensa cheques de 19
cidades
[9] , (população urbana + rural = 684.761 habitantes). Durante
1995, o valor total dos cheques foi de R$ 1.318.775.265,00, para uma
arrecadação total de impostos federais de 42 milhões. O CESEC de Porto Velho
engloba 6 cidades, além de Porto Velho. Entre elas, Humaitá (no Amazonas),
Ariquemes, importante centro minerador de cassiterita e Guajará-mirim, hoje
zona de livre comércio, como a cidade-irmã, Guayara-mirin, na fronteira
da Bolivia, um antigo ponto de trânsito na rede de tráfico da pasta base
boliviana. A população total dessa área está na faixa de 500.000 habitantes,
dos quais mais da metade em Porto Velho, capital do estado. O valor total dos
cheques compensados foi de R$2.678.255.697,00, um valor extraordinariamente
elevado para a área abrangida pelo CESEC, apesar da presença de grandes
fazendas de pecuária bovina, da mineração e da extração de madeira.
Somando os valores
dos CESECs de Porto Velho e Cacoal temos um valor total de quase quatro
bilhões de reais. Em 1995, segundo dados do Banco Central, a receita do estado
de Rondônia, basicamente proveniente de repasses do governo federal (58,8%) e
do imposto sobre circulação de mercadorias e serviços (ICMS) somava cerca de
534 milhões de reais.
Os dados sobre compensação de cheques não dão o
quadro completo de movimentação de dinheiro na região amazônica. A remessa
eletrônica é, como no resto do mundo, o principal canal de movimentação
bancária. Com dados da EMBRATEL, que forneceu a situação em abril de 1994 dos
pontos da região amazônica conectados pela rede-serviço de telecomunições por
satélite, DATASAT-BI, foi possível mapear quais as cidades interligadas
diretamente com o resto do país (Mapa 3,
Mapa 4).
Essa rede-serviço opera 24 horas, quer dizer, o aluguel desse serviço só se
justifica quando o movimento de transmissão de dados compensa o preço mais
caro do serviço. Os bancos são os principais clientes do Datasat-BI e, como
mostram os mapas, as cidades da região, em sua maioria, estão diretamente
conectadas à São Paulo, sede dos principais bancos.
As linhas de conexão existentes indicam também a
importância de determinados lugares, como a pequena cidade de Tabatinga, sitio
de uma antiga fortificação do século XVIII devido à sua posição estratégica no
rio Solimões (entre Colômbia e Peru) hoje com cerca de 20.000 habitantes.
Muito menor e mais pobre do que a vizinha mais rica, Leticia na Colômbia, a
pequena cidade tem apenas dois bancos que movimentaram cheques no valor de
R$2.330.609,00 e ainda mantém uma conexão direta, através do canal de
satélite, com São Paulo. Nota-se que a transformação de Tabatinga em zona
de livre comércio praticamente não saiu do papel, frente a competição de
Leticia.
Mais sugestivas do
que conclusivas, as observações contidas neste trabalho representam um
primeiro passo apenas, na pesquisa sobre o papel da região amazônica na
economia da droga.
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