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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo focalizou as relações entre redes ilegais e a dinâmica urbana das localidades situadas na Amazônia brasileira. As características próprias desta temática não permitem que se chegue a resultados e conclusões fechados. Seus resultados são parciais e serão sintetizados a seguir.

O primeiro resultado obtido está relacionado com o padrão das capitais como localidades preferenciais para exercerem as funções de integração e de plataforma de exportação. Este resultado nos remete a característica já citada do dinheiro ilegal seguir o dinheiro legal, ou seja, a economia ilegal atua, de maneira geral, com as mesmas lógicas que regem o movimento de capitais legais. Após o processo de lavagem de dinheiro, quando a economia ilegal atinge seu “ponto de bifurcação” os atores participantes das redes ilegais podem agir como capitalistas comuns, alocando seus recursos em atividades e localidades que lhes pareçam mais lucrativas.

As localidades que concentram os investimentos, normalmente apresentam-se em posições elevadas na hierarquia urbana pois devem apresentar uma gama de serviços que justifiquem a aplicação de recursos. Estas localidades também são normalmente centros conectivos, apresentando um leque de opções de meio de transporte justificam a sua utilização como plataforma de exportação.

Ao reconhecer a importância de nódulos de alta conectividade para a atuação das redes ilegais, não podemos deixar de mencionar a importância dos portos de entrada no território nacional. As localidades posicionadas nos principais nódulos de entrada apresentam grande importância tanto para a rede de tráfico, servindo como os principais lugares de trânsito e concretizando a utilização da bacia Amazônica como unidade funcional, pois conectam territórios nacionais diferentes. Como para a rede de lavagem de dinheiro, principalmente na etapa da colocação devido à entrada ilícita de moeda no país.

Mesmo havendo pontos de confluência das duas redes ilegais estudadas, observamos que não há uma coincidência obrigatória entre as localidades pertencentes a rede de lavagem e as pertencentes a rede de tráfico. Este fato demonstra que estas redes, apesar de manterem uma relação mutuamente benéfica, configuram organizações dissimilares e,portanto, não há necessariamente uma correlação espacial entre elas.

Há diferenças qualitativas entre as redes ilegais atuantes sobre a Amazônia brasileira. As redes de tráfico são geralmente mais flexíveis devido ao fator risco, as rotas de trânsito são profundamente dinâmicas e há uma grande mobilidade na utilização de lugares de trânsito e estocagem. As funções atribuídas às localidades na rede tendem a seguir a hierarquia urbana, porém há um alto grau de flexibilidade que pode ser ilustrado com a distribuição dos centros de processamento. Estes podem atuar em localidades próximas aos mercados de consumo ou plataformas de exportação, próxima as zonas de produção ou ainda em localidades situadas no meio destas duas pontas da circulação de drogas na América Latina. Principalmente as funções de centro de processamento e de pontos de trânsito, podem ser exercidas por localidades de diferentes níveis hierárquicos, apresentando economias urbanas diferenciadas.

Já as operações de lavagem, por dependerem de maneira mais direta de serviços que só estão disponíveis em alguns pontos específicos do território, apresentam menor flexibilidade, seguindo mais de perto a hierarquia urbana. Esta hipótese foi levantada com a constatação de que as fases do processo de lavagem apresentaram uma tendência a seguir de maneira rígida os aparatos técnicos diferenciados da hierarquia urbana.

Outro ponto que merece destaque consiste na característica observada de lugares com maior quantidade de adensamentos urbanos ao longo dos corredores apresentarem uma maior especialização funcional. A comparação entre localidades situadas longe das aglomerações e rodeadas por grandes massas florestais (como as localidades ao longo do rio Amazonas), e localidades nos adensamentos (centro sul de Rondônia) demonstrou que as etapas das redes ilegais, principalmente das redes de lavagem, se difundem mais espacialmente sobre uma rede urbana mais desenvolvida.

Conclui-se portanto que há a presença de uma lógica geográfica orientando a espacialidade dos circuitos ilegais na região estudada. A incorporação de uma localidade e a sua forma de inserção na rede são influenciadas pela posição geográfica, (se ela está próxima à fronteira ou de outros adensamentos urbanos por exemplo) e pelo seu lugar na hierarquia urbana da região. Estes fatores apresentam uma grande relação com os aparatos técnicos, os serviços bancários e a oferta de meios de transporte que uma localidade pode oferecer, o que de certo modo influenciam nas possíveis formas de inserção das localidades nas redes ilegais.

A questão central deste trabalho, que buscava discutir o papel da atuação do comércio da droga e da lavagem de dinheiro na evolução econômica da região, não pode ser respondida com precisão. Acreditamos, no entanto que as discussões e as análises aqui apresentadas, podem colaborar com a continuidade do estudo das redes ilegais e apresentarem relevância para estudos mais precisos no futuro.

 
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Última modificação: 12 maio, 2003